Alteridade em A queda do céu e a tarefa de escutar as palavras de um xamã yanomami em desenhos de escrita
Janaina Tatim
TESE
Português
T/UNICAMP T187a
[Alterity in The falling Sky and the task of listening the words of a yanomami shaman in drawings of writing]
Campinas, SP : [s.n.], 2024.
1 recurso online (185 p.) : il., digital, arquivo PDF.
Orientador: Márcio Orlando Seligmann Silva
Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Instituto de Estudos da Linguagem
Resumo: A colonização principiada pelos europeus no século XVI produziu um paradigma de outrização dos povos originários das Américas. Esta tese se dedica a um livro que propõe uma outra relação possível entre categorias que respondem a esse processo histórico. A queda do céu: palavras de um xamã...
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Resumo: A colonização principiada pelos europeus no século XVI produziu um paradigma de outrização dos povos originários das Américas. Esta tese se dedica a um livro que propõe uma outra relação possível entre categorias que respondem a esse processo histórico. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami (2015[2010]), de Davi Kopenawa, xamã e líder pertencente ao povo indígena Yanomami, e Bruce Albert, um antropólogo francês, extrapola a etnografia para criar, argumenta-se, uma narrativa que propõe que o leitor se engaje com as consequências do (re)conhecimento de outra forma de relação de alteridade, que tem por paradigma o xamanismo yanomami. Para demonstrar essa linha argumentativa, discutem-se os fundamentos étnicos e históricos, mas também editoriais, das categorias identitárias por trás da configuração enunciativa do livro e a reversão que ele opera a partir do ponto de vista narrativo: do narrador indígena, a priori, situado como outro no campo letrado, e do leitor a que ele se dirige como, por sua vez, seu outro, o branco-napë. O argumento se detém em aspectos frontais para o campo da leitura: a crítica contraetnográfica que Kopenawa faz da escrita como parte da estratégia de luta cosmopolítica do narrador, o caráter testemunhal e lutuoso da narrativa que confronta a política do reconhecimento pela diferença, a visão de Kopenawa de uma humanidade não só humana e de condição ecocentrada em tensionamento como uma visão de humanidade comum, subjacente ao humanismo da Coleção Terre Humaine e ao drama humano do antropoceno. À medida que o método do estudo se empenha na paráfrase das palavras de Davi Kopenawa, há um aprofundamento no tema do xamanismo yanomami como o que permite conhecer e transmitir um modo próprio de se relacionar com o outro, legado como um conhecimento. O xamanismo dá acesso a conhecer os espíritos xapiri como outro, não apenas por sua forma enquanto ser, mas pelo modo como praticam a relação com os xamãs como uma relação de alteridade, ensinada por eles através, salienta-se, dos princípios da estrangeiridade e da reciprocidade. Com isso, o devir/virar outro que se apresenta em A queda do céu oportuniza uma crítica da vocação etnogenocida do tratamento reservado à diferença do Outro pelas sociedades ocidentais. A elaboração da ética do cosmos yanomami por Davi Kopenawa se faz justaposta a uma postura tradutório própria do aprendizado xamânico yanomami, mobilizando noções do ambientalismo e de uma posição anticapitalista como equívocos controlados e decisivos para a compreensão de seu pensamento. Assim, A queda do céu engendra uma construção do comum que não subsume o incomum, implicando uma forma de transformação do paradigma de alteridade conhecido e desconhecido de seus leitores, também como abertura a sua própria transformação em outros. Enfeixa-se o argumento interrogando o tipo de relação que leitores e leitoras são convidados a ingressar quando Kopenawa lhes dá suas palavras, levando em conta essas mediações do livro, mas sobretudo aquelas que subsistem apesar delas
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Abstract: The colonization initiated by Europeans in the 16th century produced a paradigm of othering of the Americas’ native peoples. This doctoral thesis is dedicated to a book that proposes another possible relationship between categories that respond to this historical process. The Falling Sky:...
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Abstract: The colonization initiated by Europeans in the 16th century produced a paradigm of othering of the Americas’ native peoples. This doctoral thesis is dedicated to a book that proposes another possible relationship between categories that respond to this historical process. The Falling Sky: Words of a Yanomami Shaman (2015[2010]), by Davi Kopenawa, a shaman and a leader of the Yanomami indigenous people, and Bruce Albert, a French anthropologist, goes beyond ethnography to create, it is argued, a narrative that proposes the reader to engage with the consequences of the (re)cognition of another form of otherness relationship, which has Yanomami shamanism as its paradigm. To demonstrate this argument, it is presented the ethnic and historical, but also editorial, foundations of the identity categories behind the book’s enunciative configuration and the turning it operates from the narrative point of view: of the indigenous narrator a priori situated as other in the literate field, and of the reader to whom he addresses himself as, in turn, his other, the white-napë. The argument focuses on frontal aspects of reading: the counter-ethnographic critique that Kopenawa makes of writing as part of his strategy of cosmopolitical struggle, the testimonial and mournful nature of the narrative that confronts the politics of recognition through difference, Kopenawa's vision of a humanity that is not only human but one of ecocentred condition, in tension with a vision of common humanity, underlying Terre Humaine Collection humanism and that of the Anthropocene human drama. As the study method delves into the paraphrasing of Davi Kopenawa's words, it goes deep into the matter of Yanomami shamanism as the means that allows knowing and transmitting a specific way of relating to the other. Shamanism promotes the access to knowing the xapiri spirits as the other, not only by their form as beings, but by the way they practice the relationship with the shamans as a relationship of otherness, taught by them through, it is stressed, the principles of foreignness and reciprocity. The becoming other presented in The Falling Sky provides an opportunity for a critique of the ethnogenocidal leaning in the treatment reserved for the difference of the Other by Western societies. Davi Kopenawa’s elaboration of the ethics of the Yanomami cosmos is juxtaposed with a translational stance specific to Yanomami shamanic learning, mobilizing notions of environmentalism and an anti-capitalist position as controlled equivocation, decisive for understanding his thought. Thus, The Falling Sky engenders the common that does not subsume the uncommon, implying a form of transformation of the paradigm of alterity known and unknown to its readers as well as the opening to their own transformation into others. The argument is concluded by questioning the type of relationship that its readers are invited to enter into when Kopenawa gives his words, taking into account the book mediations, but especially considering those that subsist to them
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Aberto
Seligmann-Silva, Márcio, 1964-
Orientador
Müller, Adalberto, 1966-
Avaliador
Sá, Lúcia Regina de
Avaliador
Vieira, Patricia Isabel Lontro Marder
Avaliador
Honorato, Suene, 1981-
Avaliador
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